30 de maio de 2017

A melhor capital do nordeste?

Orla de Manaíra

No final do último mês de abril a revista Exame publicou um levantamento da consultoria Macroplan no qual são listadas as melhores cidades do Brasil, de acordo com algumas áreas distintas avaliadas: saúde, educação/cultura, saneamento/sustentabilidade e segurança.

Apesar de ter incluído 100 municípios com mais de 266.000 habitantes, o foco da notícia ficou sobre as capitais. E para facilitar a percepção dos dados, muitos portais que também propagaram o estudo, separaram os índices por região, fazendo a média dos quatro itens avaliados. Assim, temos as capitais campeãs de norte, nordeste, sul e sudeste.

A pontuação não é tão simples, mede-se apenas de 0(zero) a 1(um). Isso mesmo, a escala não vai de 0 a 10 ou de 1 a 100 com números exatos. São frações após zero e vírgula que determinam a distância ou a proximidade entre as concorrentes.

Feitas as médias, João Pessoa - capital da Paraíba, obteve nota 0,574. Isso foi suficiente para colocá-la na posição 12 entre 26 capitais. Ou seja, quase no meio da tabela. Entretanto, separando as regiões, ela é a cidade do nordeste mais bem colocada na pesquisa.

Para um povo vitimado por décadas de preconceito e perseguição xenofóbica, ser campeão ou aparecer à frente de outras capitais numa avaliação positiva é motivo de orgulho além da conta. E num estado que respira política, qualquer prefeito faria show pirotécnico com dados desse tipo nas mãos. Certamente por isso, as redes sociais e os portais locais de notícia não cansaram de repercutir o levantamento da Macroplan ao longo dos últimos dias.

Não querendo ser advogado do diabo, mas promotor da justiça, devo dizer que há muito enfeite e pouco efeito nessa história. Para começar a esclarecer os fatos, vamos aos números:

Mapa de "melhores cidades" - Macroplan

Curitiba-PR, cidade dona da melhor média nacional, tem pontuação 0,696. Já Macapá-AP, que detém a pior pontuação geral, marcou 0,434. Ou seja, todas as outras capitais do Brasil habitam uma zona de proximidade limitada a 0,262 pontos. Isso significa que, no geral, o Brasil todo é muito parecido.

Senão, vejamos... 

Mesmo limitando a disputa só ao nordeste, dos quatro itens avaliados, João Pessoa venceu apenas um! 

Repare: em educação e cultura, por exemplo, nossa média foi 0,416, o que equivale à 21ª colocação nacional e penúltima do nordeste. Em saúde, perdemos para Fortaleza e Natal aqui mesmo no nordeste, e ficamos na 13ª colocação nacional. Em segurança, perdemos por aqui para Salvador, Recife e Natal e ocupamos a 20ª colocação nacional. Em saneamento, com 0,831, conseguimos a melhor nota e, por isso, mesmo com a 7ª colocação geral neste quesito, tornaram-se possíveis o primeiro lugar do nordeste, a melhor média da região.

Ademais, podemos acrescentar que o levantamento acumula dados de órgãos públicos divulgados entre 2004 e 2015. Portanto, ainda que os números fossem convincentemente positivos, não serviriam de atestado para a gestão atual ou mesmo para a anterior. Trata-se de uma sequência.

Continuo achando que João Pessoa é uma ótima cidade, um belo lugar para se viver. Mas porque a natureza é generosa e Deus foi bondoso. Temos uma localização privilegiada, dimensões geográficas no padrão europeu e um clima bem agradável. No que depende de gestão pública, serviços à população e condições materiais de vida, nossa cidade não está segregada do Brasil.

Somos cobertos pelo mesmo lençol da corrupção, nos faltam investimentos básicos, os transtornos de más gestões acumuladas do passado ao presente é nítido e não temos do que nos orgulhar, infelizmente.

A má distribuição de investimentos tornou João Pessoa uma cidade cheia de contrastes. Assim como no levantamento divulgado, no dia a dia da cidade também é assim. Ou seja, para cada nota lá em cima, tem duas ou três lá em baixo. Para cada metro de nobreza (que custa caro, acima da média) há outros 10 de pobreza e desprezo.

Eu lanço o alerta dessa condição para que o marketing não tire nossos pés da realidade, não permita que esqueçamos a luta e o clamor por dias melhores num lugar melhor. Aguento firme a insatisfação de colegas e conhecidos ligados às gestões públicas locais, que assistem e ficam na bronca com meus vídeos no YouTube, apenas porque eles mostram a realidade.

Não paro! O episódio lançado nesta terça (30/05) mostra mais um pouco do contraste exposto pelo poder público. No que depender de mim, o informe publicitário não vai cegar a realidade.

Fonte das informações: Exame

Assista "JOÃO PESSOA"