3 de março de 2017

Por que homens detestam 50 tons?

Lançado nos cinemas do Brasil em fevereiro de 2015, o filme "50 tons de cinza" de Sam Taylor-Johnson, baseado no primeiro livro da trilogia escrita pela inglesa E L James, causou um reboliço entre as cocotinhas e deixou muito marmanjo de mau humor. A divisão desproporcional de gêneros deixou a obra longe de ser uma unanimidade, mas cumpriu bem o papel de gerar curiosidade e movimentar bilheterias.


Ao levantar dados estatísticos sobre o público da obra, chegamos a uma maioria superior a 80% de mulheres. E se pesquisar um pouco na internet, é possível encontrar até tópicos onde caras discutem a melhor forma de terminar com a namorada, caso a companheira queira assistir o filme!

Então, afinal de contas, o que há nos 50 tons que tanto agrada mulheres e tanto irrita homens?

Primeiro, é bom salientar que as críticas se encorparam após o lançamento do filme. Os livros, apesar de procurados majoritariamente por mulheres, não causaram grandes efeitos positivos ou negativos sobre o público masculino. A grande questão é que a trilogia tem cunho erótico e é direcionada justamente ao público feminino, que vê na garota da trama a dúvida de ceder ou não aos encantos de um milionário charmoso, que se interessa por ela de uma forma inusitada, buscando explorar seu corpo como um brinquedo.


Até aqui tudo bem... De acordo com o livro, apesar do enredo pobre de dar dó, nada muito escandaloso. Nos parece apenas que uma garota pobre e tímida, deve escolher se deve ou não ser violentada por um cara bonito, rico e louco, mas que ela ama. Para uma mente pouco exigente, não podemos negar que isso até rende mesmo algum entretenimento.

O grande problema para os cuecas de plantão começa exatamente quando o enredo sai do papel para as telonas. Ali, o que já apelava para o instinto feminino no livro, passou a ser um escárnio para os homens, no cinema. Explico...

Por instinto, a maioria dos homens busca prover uma mulher, ou seja, entregar aquilo que ela precisa, para ser recompensado com amor. Todo (H)omem quer impressionar uma mulher e, para isso, cada um usa de seus artifícios. Uns capricham mais, outros menos, mas em geral é isso. E as mulheres se atraem por aqueles que as impressionam mais. Essa é uma lei natural, está impressa no DNA e vale até mesmo para outras espécies, onde os machos duelam pela fêmea e ela se dá para o vencedor.

Mas... E os 50 tons, o que tem a ver? Pois bem, o filme trouxe à tona um esteriótipo masculino absolutamente imbatível. O ser mais capaz possível de impressionar uma mulher. Interpretado pelo inglês Jamie Dornan, o personagem Christian Grey não é apenas um cara bonito e rico que bate em mulheres. Ele é musculoso, inteligente, milionário, pilota helicóptero (que é dele mesmo), tem uma garagem inteira de carros de luxo, empregados, tempo livre e gosta muito de transar. Ele instala computador e internet na casa da mulher, presenteia ela com carro, viagem internacional e faz contrato de fidelidade. Ah, quanto ao lado negativo, esquece... Só usa algumas algemas e dá tapinha no bumbum. Em contrapartida, Dakota Johnson, a atriz que faz a mocinha, é mais insossa do que sopa de hospital. Além da cara azeda, não tem anatomia avantajada e tem menos exposição corporal do que o Grey.


Ou seja, o filme é um presentão para elas e uma cápsula de provocação para eles. É uma pornochanchada inglesa, feita para mulheres, com spoiler liberado pelos livros. Mas não é só isso, tem mais...

Dois anos após a primeira parte da obra, chega aos cinemas a parte dois do pesadelo masculino, os "50 tons mais escuros", onde Christian Grey melhora e fica ainda mais imbatível, alimentando a imaginação e lubrificando a mulherada. Tão viril quanto antes, agora, no entanto, ele cede mais espaço para a mocinha.


Mas, se é bom para elas, qual o problema que o homem vê numa mulher que assiste os 50 tons? Bom, se não for a mulher dele, o problema é mínimo. O homem por natureza faz apenas questão de desqualificar o filme para preservar seu instinto de macho alfa, sem ser passado pra trás por uma criação de ficção. É algo parecido com as críticas genéricas que muitas mulheres fizeram ao longo do tempo para as fotos de revista que apresentavam outras mulheres "perfeitas à base de photoshop". Uma necessidade básica e até irracional de defender o seu lugar de admiração perante o sexo oposto.


Agora, se a mulher que quer ver o filme for a do homem em questão, a briga é praticamente inevitável. Reflita: é preciso rodar muitas milhas para encontrar um homem que aceite imaginar sua mulher se excitando por outra fonte que não seja ele mesmo, sendo essa excitação voluntária (indo ela até o cinema e pagando o ingresso para ver o filme do cara estereotipado). Eis a razão da raiva.

A trilogia será concluída no cinema antes de 2020 com os 50 tons de liberdade, onde Christian Grey finalmente atingirá o ápice e será perfeito, tendo cumprido todas as etapas de conquista e evolução que um homem comum jamais conseguiria. É bem provável que até lá as solteiras que hoje se encantam com o Sr. Grey ainda estejam assim. E as comprometidas, se quiserem apreciar mais dessa saga juvenil, estarão travando novos embates com seus homens que detestam 50 tons.

Claro, os efeitos de cada atitude são diretamente ligados ao contexto em que vive cada pessoa, cada casal. Tem gente de relação aberta, onde liberalidade e libertinagem se confundem sem gerar problemas. Enquanto há pessoas para as quais os mesmos atos podem ser o fim.